domingo, 8 de janeiro de 2012

Sobre Ambivalência

Para minha Pequena Graça.


— Você, por exemplo, me comeria?

Aquela pergunta me soou um tanto escabrosa. Quase me engasguei com a minha bebida. Absinto no meio da tarde de uma quinta-feira, veja você. Preciso parar com essa mania de beber todo dia. Mas é tão difícil abrir mão do meu drinque de fim da tarde. Então, eu simplesmente não abro. E agora aquele homenzarrão ali, na minha frente, segurando minha mão e fazendo uma abordagem daquele tipo, que de tão grotesca, beirava a obscenidade. Pedi outra dose para ganhar tempo e coragem de levar o papo adiante. Poderia entrar na onda e dizer que sim, e depois sair pela tangente alegando estar bêbada. Mas achei que seria escroto por demais da minha parte fazer a dissimulada com um assunto tão delicado para ele. Fiz-me de desentendida, então:

— É uma retórica, certo?


— Na verdade, não. Quer dizer, não eu exatamente... Você sabe, Mari... A Débora... Você iria pra cama com ela? Você disse que ela era linda...

Sim, realmente eu havia dito. Mas entre uma coisa e outra existia um abismo de proporções colossais. Quer dizer, uma coisa era assistir aos desfiles particulares, prestigiar as trocas de roupas dele, elogiar, “linda”, “belíssima”, “arrasou no decote”, ajudar na maquiagem e na escolha dos acessórios. Outra coisa era ir para cama. Uma coisa era ligar um namorado, ali, na hora do vamos vê. Outra, era ser um homem para um outro homem vestido de mulher.

Tudo começou quando eu namorava o Serginho. Felipe e ele eram amigos de longa data, estavam sempre juntos, e eu, por tabela, me aproximei dele e descobrimos que tínhamos várias afinidades, uma energia boa. Namorei o Serginho durante alguns anos, e fazíamos muitas coisas juntos, nós três. Fiquei mal quando acabou aquele namoro. Ele foi meu primeiro amor, sabe, desses que tira a gente de órbita, que faz a gente pensar em casar, ter filhos, ser de alguém para sempre. Mas o fato de eu gostar de meninas acabou balançando muito a nossa relação. Hoje eu vejo que não tinha muita necessidade e nem motivação prática para ele ficar sabendo daquilo. Mas eu era tão jovem e inexperiente que, na sofreguidão de ser absolutamente honesta, de não ter segredos com o homem que eu amava, acabei contando. E ele se tornou um cara inseguro, ciumento, cheio de neuroses, ficou irreconhecível e, por tabela, pouco encantador aos meus olhos. O medo dele de ser rejeitado, traído ou trocado por uma mulher, sufocou nosso amor. E talvez, realmente, passado algum tempo, a vontade de estar com uma mulher poderia tornar-se latente, ao ponto de eu sucumbir a ela. Eu conseguiria ser fiel ao Serginho, e àquele amor que eu sentia por ele, para sempre? Nunca saberei...

Além disso, a nossa relação já andava estremecida desde que resolvi fazer um pedido inusitado, aos olhos dele, na cama. Havia uma incompatibilidade sexual entre o meu gosto por novidades e novas experiências e seu convencionalismo. E depois daquela dedada ele nunca mais foi o mesmo. Sim, um dia, eu resolvi pedir, sempre tive tara nessa coisa, no universo invólucro que é o ânus masculino, mas ele disse não. Até que numa ocasião, em que havia bebido um pouco e em que eu estava prá lá de persuasiva, ele cedeu. Depois disso, nunca mais deixou e tudo ficou muito estranho entre nós. No sexo e na vida. Ele não queria ser ligado. “Ah, Mari, hoje, não, não tô afim, não gosto dessas coisas, você sabe”, dizia. Talvez tenha sido melhor assim, já pensou, eu casada com ele e frustradíssima com aquela vida sexual desligada e chata pra cacete? Mas no fundo, me arrependo até hoje disso, paguei um preço altíssimo por aquele fio-terra. Eu realmente o amava e de uma maneira inocente, quase bucólica, que nunca mais aconteceu. E depois disso, sempre que surge uma oportunidade eu faço a fatídica pergunta aos caras com que namoro ou saio: “Deixa eu ligar você?”. Ah, não custa nada tentar. Levei alguns “nãos”, outros ficaram viciados... E eu fiquei com fama de rainha da ligação. Modéstia a parte, sei ligar um cara como ninguém. Perguntar não ofende, certo? E quem nunca arriscou abordagens como essa, não sabe o que é ter o leque de possibilidades aberto. Já saí com muitas meninas lindas, que se diziam héteros convictas, graças a minha audácia de fazer perguntas do tipo “como você sabe que não curte, se nunca provou?” e plantar a sementinha da dúvida e da curiosidade na cabeça delas.

Mas voltando ao Felipe, o namoro com o Sé acabou e a amizade com ele ficou. Enquanto eu namorava o Serginho a gente já saia junto às vezes sem ele, o Serginho não ligava, confiava cegamente no amigo, e também, nem pensávamos nisso, a nossa vibe era de amizade mesmo. Comecei a notar que havia alguma coisa de diferente nele. Felipe dificilmente estava com garotas, a exceção de mim. Ele engatava uns namoricos, mas era tudo bem volátil e, às vezes, ficava na cara que era para disfarçar, mesmo. Porque eu tenho um radar para sacar esse tipo de coisa. Dificilmente, por mais feminina que ela seja, eu deixo de detectar se uma mulher curte. Alguns detalhes, comportamentos e frases chaves, entregam até mesmo as pessoas acima de qualquer supeita, como, por exemplo, cantarolar músicas de Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Ana Carolina e Maria Bethânia. No caso dos homens, gostar de Lady Gaga, Britney, Madonna, Adele... Não, meus queridos, hétero não ama Adele! Aliás, heterossexual masculino de verdade não “ama” nada. Outras coisas também dão na pinta, mas a pista maior é o desconforto da troca de pronomes ao contar algum “causo” amoroso para pedir opinião: ela para ele, dela para dele, ou vive-e-versa.. As expressões “eu tenho um amigo que...” ou “essa PESSOA que eu tô saindo”, também são reveladoras.

Fui deixando o Felipe bem a vontade para se abrir e, aos poucos, mostrando que ele poderia confiar em mim. Inclusive, contei para ele os reais motivos pelos quais o Sé e eu havíamos terminado. Tinha quase certeza que ele ia me contar que era apixonado pelo Serginho, que os dois tinham um caso, algo assim. Mas ele não era gay, como eu supunha. Quer dizer, não esses gays convencionais, a coisa era mais complexa: O Felipe saía com travestis. Aliás, não só saia, como se envolvia emocionalmente com elas, namorava e tudo. Claro, isso gerava uma espécie de constrangimento social para ele, afinal como ir ao cinema ou a praia, ou apresentar para os pais uma mulher de gogó? Certo, algumas são extremamente femininas, imperceptível, mas no geral, esse tipo de coisa não dá pra esconder por muito tempo, pela vida toda, por exemplo. E ficar conhecido entre os amigos e parentes como “o comedor de traveco” era delicado mesmo e eu super entendi. Virei sua confidente, a única pessoa com quem ele podia conversar sobre isso, não sem antes jurar-lhe de pés juntos que jamais contaria aquilo para ninguém principalmente pro Serginho. Conheci várias namoradas dele, todas travestis lindíssimas, algumas mais contidas, outras mais extravagantes mas sempre com aqueles nomes que elas adoram: Raika, Lorraine, Mikelli, Valesca... Nunca vi travesti chamada Maria, Ana... Através do Felipe fui entrando um pouco nesse mundo do aloucado, do exagero, do incomum. Descobri que entre o masculino e o feminino, existem inúmeros níveis, algumas até inomináveis. E ficava fascinada por aquilo, curiosa, envolvida, quase apaixonada, eu diria. Saía com eles, virava amiga delas, conhecia todo tipo de gente. Era uma festa. Chegamos a um grau de intimidade tão grande, que um dia, não me contive e perguntei:

— Fê, essas travas... Elas te enrabam? — ele sorriu, como quem pensa “intimidade é uma merda!”, mas não hesitou em responder.

— Não, Mari... Não curto isso, não. Mas... — Ah, o “mas”! Sempre o “mas”. Naquele dia, fui apresentada a Débora. Sim, apesar de não gostar de sair com homens, e nem de ser penetrado pelas travestis que namorava, o Felipe adorava se vestir de mulher. Só que não se montava pra qualquer um, não. Então, sempre que estávamos a sós, no apartamento dele, e bebíamos um pouco, ele chamava a Débora. Ficava um tanto quanto irreconhecível. Agia e falava de maneira feminina. Fazia desfiles de roupas. Era divertido. Truanescamente divertido.

E agora ele estava ali, na minha frente, fazendo aquela proposta indecente. Ele andava muito mal desde que terminou com a Pâmela, uma travesti que conheceu na internet e namorou durante alguns anos. Era coisa bem séria. Mas a Pâmela descobriu que ele curtia se vestir de mulher e ficou chocada. Logo ela, uma travesti, se chocar com esse tipo de coisa. Quer dizer, comer e ser traveco estava tudo muito bem, agora gostar de se vestir de mulher, até pra ela já era demais. E o mundo tá cheio disso, pessoas fora dos padrões que se chocam com outas também desenquadradas, mas de maneiras diferentes. “Cada um tem seu limite, Felipe”, ela argumentou antes de dizer adeus.

— Ah, Fê... Não sei...

— Não me responde nada agora. — soltou minha mão e acariciou meu rosto. Aquelas mãos fortes e viris, não combinavam nem um pouco com o que ele estava pedindo. — Pensa e me fala depois. Seria divertido... E bem diferente... — a palavra “diferente” mexia comigo e ele sabia disso. Ah, essa minha sede pelo novo, pelo desconhecido, ainda ia acabar me matando, concluí naquele momento.

Voltei pra casa com a cabeça cheia e a imaginação trabalhando sem parar. Como seria aquela situação? E aquela história dele de não curtir prazer prostático? Por que iniciar a Débora logo comigo e não com um homem, não parecia mais óbvio? Fiquei em pé no metrô lotado tentando tomar uma decisão, mas me distraí com uma menina linda, extremamente aprazível, sentada na minha frente. Ao lado dela uma senhorinha com cara de frígida. E atrás, dois héteros escrotos, conversando e disfarçando muito mal enquanto a secavam. Sim, eu catalogo as pessoas em grupos. Sei que é meio detestável, mas quando vejo, já fiz. E no fundo, assim é melhor pra mim, pois, quando preciso de alguém, para qualquer coisa, já sei em que grupo ela está, e como devo agir. Mas, aliás, quantas coisas eu sei que são erradas, mas faço mesmo assim? E quem nunca agiu desta maneira que atire a primeira pedra. Todo mundo tem um pequeno detestável dentro de si, ah, se tem...

Mas em que grupo eu mesma estava arrolada? Na verdade, minha sexualidade sempre foi algo que me inquietou. Tudo me era bonito e parecia interessante. E, depois que conheci esse universo das travestis, das drag queens, dos trans, dos queer, meu tesão andava pouco direcionado. Eu não tinha muitas restrições e isso me dava medo. Certa vez, numa festa de família, um primo meu disse que “pansexual é aquela galera que transa com qualquer coisa, e isso inclui coisas como Restart e o Serguei.” Foi a primeira vez que ouvi a palavra “pansexual” e, passada a graça da piadinha dele, pensei que poderia estar nesse grupo. Mas a coisa é muito mais complexa do que parece. Certo, sou pansexual, fiquei feliz e fui transar com uma árvore. Não, não é assim. Eu precisava me encontrar de alguma maneira e não era tão simples. Aos poucos, o efeito do absinto ia passando e eu ia me acostumando com a idéia de sodomizar o Felipe, ser um homem para ele. O exótico, o pitoresco sempre me interessou muito. De alguma maneira, eu me sentia atraída pela fantasia. Porque tudo é válido. Qualquer viagem é viagem.

Durante a noite, a Nádia, manicure da minha família há anos e minha amiga íntima, foi lá em casa fazer minhas unhas e conversei com ela um pouco sobre aquilo tudo. Andava abatida, tadinha, rompera com o marido há poucos meses. Se separaram porque, um belo dia, ele chegou em casa e a espancou. Ela deu queixa, mas ninguém sabia de muitos detalhes, aquela surra do nada, ele nunca foi violento. Apesar de ser bem caretona, comparada a mim, adorava me ouvir e eu a ela. Apreciava aquela sensualidade casta dela. Uma pena que ela não curtisse e que fôssemos tão próximas. Afinal, perco a transa, mas não perco a amiga, então, a possibilidade de cercá-la nunca passou pela minha cabeça...

— Cross o quê? — ela me indagou, enquanto soprava o esmalte sobre as minhas unhas do pé, para secar mais rápido.

— Dresser, crossdresser. São caras que curtem se vestir de mulher, mas não necessariamente são gays. Só que agora ele me quer, mas eu não sei se devo, acho que não saberia como agir na hora...

— É, minha filha, como eu sempre digo, cada um com as suas taras... Sabe, umas semanas antes da gente se separar, o Carlão veio com umas conversas estranhas pro meu lado. Comprou umas cordas e queria que eu amarrasse ele, vê se pode? Eu disse que não ia amarrar ninguém e que isso era coisa de baitola! Morreu o assunto... Mas aquilo ali marcou, sabe... As coisas ficaram estranhas entre nós, até o dia em que ele chegou em casa e fez o que fez... — Gente, o Carlão? Eu pensei. Então, tinha um motivo para aquela surra homérica de súbito. Tara reprimida! As pessoas têm cada esqueleto dentro dos armários que fariam inveja a qualquer roteirista de filme pornô de quinta.

Depois que contou do marido que curtia bondage, entrou numa vibe de soro da verdade. Meu quarto passou a cheirar a perversão:

— Eu tenho uma prima que ela faz essas coisas, de... Como é mesmo o nome? Como é mesmo o nome, Mariana de Deus? Ai, gente... Dominação, isso, dominação! Menina, ela fala que tem um tipo de homem que gosta de dominação doméstica, que cuida da casa para ela... Os domésticos ela encontra na internet. E ela tem uma amiga que só arranja escravo para limpar a casa dela. Ela tem faxina de graça e, às vezes, nem faz nada com eles. Depois de tudo limpinho, manda os caras embora. Você gosta dessas coisas também, Mariana? De chicote, de bater, de botar pra fazer faxina?

Não, eu não curto dominação pesada e nem doméstica. E também não gostei de fazer sexo a três, embora não me considere moralista. Imoral é mentir, roubar, passar a perna nos outros, ser violento gratuitamente. No sexo, imoral é a pedofilia. Tudo é permitido, até as coisas que eu não faria, desde que as duas pessoas aceitem. Para isso, elas precisam entender o que estão fazendo, e uma criança não entende isso. Dei uma cortada nela, porque fiquei com medo daquela conversa ganhar ares escatológicos e eu não tinha jantado ainda. Mas não sem antes ela me contar de um cara que estava saindo, mas que era casado. Foram pra cama e ela teve um probleminha de saúde e tudo. O organismo estranhou aquele novo intruso, depois de anos de Carlão...

— Vem quando a gente menos espera.

— O quê? Infecção urinária?

— Não. O amor. E você está apaixonada por esse homem. E o próximo passo, naturalmente, é essa paixão virar amor. Deleite-se, então!

— Mas Mari, ele é casado... Vai largar a mulher pra ficar comigo, coitada? Não tá certo...

— Você quer ser feliz ou quer estar certa?

A maioria das pessoas vai contra si mesma de uma maneira que agride e, às vezes, isso trás conseqüências pro resto da vida. Depois de dar aquele conselho pra Nádia, não podia agir de outra maneira que não fosse aquela: Mandei um sms pro Felipe, dizendo que queria ver a Débora no dia seguinte, depois do trabalho. Não queria me arrepender por não ter feito.

Era noite de sexta-feira e eu tinha um encontro com a Débora.

Os segundos que separaram o toque da campainha do abrir da porta foram de pura tensão. Será que eu deveria ter me vestido de homem? Devo falar mais grosso? Que diabos ele esperava de mim? Quem me recebeu foi o Felipe com aquele sorrisão largo dele. Seguimos o mesmo ritual de sempre, das bebidinhas até as suas trocas e os desfiles de roupas, já montado. Ficamos olhando umas revistas de moda, trocando idéias sobre uns modelitos, sobre quem ficaria melhor com o que, até que minha bebida acabou. E a Débora, danadinha, me roubou um beijo. Aproximamo-nos. Eu respirava forte, estava nervosa. Fechei os olhos e senti seu perfume:

— Eu tenho medo de... De decepcionar você...

— Xii... Não fala nada. Deixa as coisas acontecerem naturalmente... — Acaricou-me, e levantou minha cabeça. Olhou-me nos olhos com desejo. — Você é linda, Mari!

Mari? Achei que não tinha mais nada a ver ele me chamar de Mari! Pensei em sugerir um nome masculino. Astolfo, talvez. Qual era a fantasia ali, afinal? Eu estava confusa. Mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa ela já havia me agarrado novamente. E já estávamos na cama despidas. A calcinha da Débora era menor que a minha, como aquele brutamontes conseguia ser mais feminino do que eu? Essa androginia quase caricata do Felipe estava me matando. Porque me confundia. Porque me excitava. Quando estávamos naquilo que julguei ser o clímax, achei que era a hora: Fui ligar a Débora, assim, sem nem pedir licença!

— O que você tá fazendo?

— Vou te comer, ué!

— Não, eu não quero isso! Não curto ser penetrado, você sabe!

Fiquei parada, sem entender nada.
— Vem cá, Mari, não fica nervosa... Deixa as coisas, acontecerem, já te falei...

E me beijou com calma. E depois com muita fome. E então, a Débora me possuiu. Entendi que ele não queria ser exatamente uma mulher. Sei lá, a Débora era meio lésbica, talvez... E foi diferente de tudo. Porque não era um travesti ali dentro de mim. Ele tinha a voz grossa, os braços fortes, mas usava batom, falava delicadamente e falava de si mesmo no feminino. E embora fosse ela quem me possuísse, eu tinha o controle da situação e ela, apenas submetia-se como uma mulher mesmo. Uma hora eu me distraí com aquelas divagações e quase caí na gargalhada. Porque a situação era extremamente bizarra, vista de fora. Foco, Mariana, foco, eu pensei. Voltei pra vibe e chegamos ao final daquilo exaustos. E em êxtase.

No sábado, tomamos café da manhã juntos e depois fomos dá um passeio no parque, ele já de Felipe, claro. Disse que estava bem. E que tinha adorado a experiência. Eu retribuí. Começou a chover de maneira bastante convidativa a um banho. Ficamos ali, fazendo algazarra por um tempo na chuva, feito duas crianças. E nos beijamos. E quem nunca deu um beijasso embaixo de chuva não sabe o que é se sentir numa cena de novela das oito. Fomos para o carro depois, e ele me levou em casa.

— Adoro você, Mari!

— Eu também adoro vocês! — respondi enquanto corria do carro até a portaria do meu prédio, tentando agora, não me molhar. Totalmente paradoxal. Como tudo o que havia acontecido naquela noite.

E eu percebi que não sabia em que grupo estava. E descobri que não queria mais saber. Assim como entre o 1 e o 2 existem infinitos números, no sexo as possibilidades são diversas. Não atribuo as minhas preferências sexuais a nada, e passei a achar cretinice buscar respostas para isso. Esse é o meu gosto, a minha preferência. E ponto final. Por enquanto, estou bem assim. Se um dia bater aquela crise existencial, corro pro analista ou então vou à praia. Ou faço um blog, quem sabe...

Quando entrei no apartamento toda encharcada e rindo sozinha, minha mãe estranhou:

— A noite foi boa, hein moça?

— Ambivalente! — respondi enquanto preparava o meu drinque diário. Vodca pura. A ocasião pedia.

9 comentários:

  1. ah, isso é um conto?
    caralho!!!

    =O

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  2. Bom conto, divertido e leve, apesar de tratar de um tema delicado. Parabéns, Lú, tá ficando legal isso aqui! Beijinhos!!!

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  3. “pansexual é aquela galera que transa com qualquer coisa, e isso inclui coisas como Restart e o Serguei.” Hahahaha! #euri

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  4. Texto muito longo, mas engraçado e interessante o que tornou a leitura bastante agradável.

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  5. Rindo e refletindo sobre o tema...sexualidade é um assunto cheio de tabus mas que não deve haver se de comum acordo. Bjs

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  6. Pequena Graça ♥14 de janeiro de 2012 20:54

    "(...) não tinha mais nada a ver ele me chamar de Mari", mas Astolfo...kkkkk.
    Bom conto, no mesmo suspense de Epílogo, bem escrito. Hahaha...Achava que vc não levava a sério as coisas que eu conto. Me fez lembrar e refletir (de uma forma divertida) sobre o passado. Não dá p/ conter o riso em diversos trechos!
    Escrita longa, porém envolvente.
    Sucesso!

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